A 14ª edição da Semana Fluminense do Patrimônio, realizada entre 25 e 27 de novembro, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro reuniu especialistas, pesquisadores, representantes de comunidades tradicionais e gestores públicos para discutir os impactos das mudanças climáticas sobre o patrimônio cultural. Organizada pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), em parceria com instituições científicas e culturais do estado do Rio de Janeiro, a edição de 2025 dialogou diretamente com as discussões da COP30, realizada naquele mês em Belém do Pará.
Criada em 2011, a Semana é um dos principais fóruns de debate sobre preservação da memória e da cultura no estado do Rio de Janeiro. Além das mesas temáticas, o evento contou com uma mostra de filmes e atividades artísticas, como apresentações de grupos de dança e música do Norte Fluminense.
Crise climática, saberes ancestrais e patrimônio cultural
Ao abrir o evento, Helena Tavares, do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Fiocruz, ressaltou que a separação entre natureza e cultura, central no pensamento ocidental, precisa ser questionada, pois não corresponde à experiência cotidiana de povos indígenas, quilombolas, caiçaras, ribeirinhos e outras comunidades tradicionais.
Ainda na mesa de abertura, a professora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e secretária do Comitê sobre Mudanças Climáticas e Patrimônio do ICOMOS-BR, Luana Campos, apresentou exemplos de como sociedades antigas lidavam com questões ambientais, como a construção das estátuas moai, na Ilha de Páscoa. Ela também destacou experiências no Pantanal, onde povos indígenas desenvolveram estratégias para enfrentar incêndios, calor extremo e a gestão da água, conhecimentos que, segundo a pesquisadora, podem inspirar o planejamento territorial contemporâneo.
O papel dos territórios indígenas e quilombolas na preservação ambiental foi destacado por Ivanildes Kerexu. Ao compartilhar sua experiência na COP30, ela reforçou a importância de levar a voz das comunidades tradicionais aos espaços de decisão e afirmou que os conhecimentos ancestrais também constituem conhecimento científico. Estabeleceu uma relação direta entre mudanças climáticas, defesa do território e políticas de demarcação de terras, ressaltando que a preservação ambiental está ligada à garantia de direitos territoriais.
Povos originários e mudanças climáticas
No segundo dia do evento, os debates seguiram duas abordagens principais: os impactos das mudanças climáticas sobre os povos originários e os efeitos de eventos climáticos extremos na preservação do patrimônio cultural. A mesa da manhã refletiu sobre os efeitos dessas transformações na vida e na cultura de povos indígenas, ressaltando que essas populações estão entre as mais vulneráveis à crise climática.
A presidenta do Conselho Diretor do Museu Caiçara, em Ubatuba, Carol Barbosa, destacou os impactos ambientais e territoriais enfrentados pelas comunidades caiçaras. Segundo ela, esses impactos não são devidamente considerados e afetam a segurança e o modo de vida local. Carol chamou atenção para conflitos fundiários na região da Bocaina, onde leilões de terras têm permitido a expulsão de comunidades tradicionais, ressaltando que “não existe comunidade tradicional sem território”.
O impacto das mudanças climáticas sobre os modos de vida dos povos originários foi o tema da apresentação de Julio Karai Xiju, que lembrou que, no passado, havia uma fartura bem maior nos rios e matas. Ele também defendeu que governos e instituições reconheçam os direitos e as práticas tradicionais dos povos originários, especialmente no debate sobre demarcação de terras.
Quando a destruição vira patrimônio
Na parte da tarde, o tema em destaque foi o impacto dos eventos climáticos extremos na preservação do patrimônio cultural. A mesa discutiu os efeitos de enchentes, deslizamentos, elevação do nível do mar, secas e incêndios sobre diferentes tipos de patrimônio, como o edificado, o arqueológico, o paisagístico e o imaterial.
A produtora e curadora da residência artística CasaDuna, Julia Naidin, apresentou sua experiência na praia de Atafona, no Norte Fluminense, onde o desvio do rio Paraíba do Sul enfraqueceu seu fluxo e permitiu o avanço significativo do mar. Desde 2017, ela desenvolve um trabalho transformando ruínas de casas destruídas pelo mar em espaços de convivência. Julia destacou ações para a preservação da memória do local, como a escuta de pescadores, a formação de grupos de teatro, a projeção de filmes nas ruínas e a criação de um museu ambulante.
Políticas públicas, órgãos ambientais e ação climática
O último dia de atividades foi marcado por mesas que articularam políticas públicas, patrimônio cultural e mudanças climáticas. Ricardo Marcelo, instrutor de mudanças climáticas e sustentabilidade da Universidade do Ambiente do Inea, destacou que a atuação histórica dos órgãos ambientais tem se concentrado mais no controle e na punição do que na prevenção, o que se mostra insuficiente diante da crise climática. Segundo ele, preservar o patrimônio cultural e natural exige conhecer os territórios e as populações que neles vivem, incorporando a dimensão cultural aos processos de licenciamento ambiental.
Encerrando a mesa, Mauro García Santa Cruz apresentou experiências internacionais que articulam cultura, ação climática e justiça social, destacando o patrimônio cultural como dimensão estratégica para políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
A perspectiva dos saberes tradicionais e das experiências de comunidades locais estiveram no centro do debate da tarde. A mesa Memória, território e clima: caminhos para a preservação sustentável destacou como práticas culturais ancestrais contribuem para respostas sustentáveis à crise climática.
As mesas completas e mais informações sobre a Semana Fluminense do Patrimônio podem ser encotradas no YouTube e site do evento.