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Fotos: Vitor Vogel
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Em aula-experimento no Salgueiro, história, patrimônio e saberes ancestrais

Realização da Cátedra Oswaldo Cruz, atividade interativa propõe percursos guiados em territórios invisibilizados

Karine Rodrigues

19 dez/2025

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Ô, Inaê/ Ô, Inaê/ Pisa na goma, Inaê/ Pisa na goma eu quero ver”, entoam as pessoas reunidas no Instituto Sal-Laje, espaço de difusão de práticas agroecológicas e ancestrais no Morro do Salgueiro, na Tijuca, zona norte do Rio. Batidas de tambor, palmas e uma dança marcada por movimentos giratórios acompanham o ponto do jongo, forma de expressão afro-brasileira reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Tomado pelo canto e o aroma de um almoço preparado com receitas centenárias, o ambiente convida à imersão no território ocupado por lavouras de café durante o período colonial, mantidas ao custo de suor e sangue de escravizados. 

O canto dos anfitriões do Salgueiro é seguido por estudantes, professores universitários e profissionais de diferentes áreas do conhecimento, participantes do Imersidades, atividade interativa promovida semestralmente pela Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). A aula-experimento é uma realização da Cátedra Oswaldo Cruz de Ciência, Saúde, Cultura, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que objetiva incentivar a colaboração Norte-Sul-Sul, intensificar a troca de conhecimentos sobre patrimônio e história da ciência e da saúde e promover o intercâmbio entre saberes tradicionais e outras formas de conhecimento.

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Guiado por Emerson Menezes, grupo subiu o Morro do Salgueiro pela principal via de acesso à comunidade, a rua General Roca

A iniciativa é também um convite ao deslocamento, pois ultrapassa os limites da sala de aula. Após uma caminhada com a geógrafa Rejany Ferreira dos Santos, realizada em julho pelo território de Manguinhos, para discutir, in loco, a degradação que afeta a Bacia Hidrográfica do Canal do Cunha, o Imersidades, em sua 2ª edição, subiu o Morro do Salgueiro, na última sexta-feira de novembro, para conhecer manifestações culturais da comunidade e debater os desafios para mantê-las e transmiti-las para as novas gerações.

Quem guia o grupo é o jornalista Emerson Menezes, morador da comunidade há cerca de 20 anos, que, recentemente, concluiu o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde (PPGPAT/COC/Fiocruz), com uma pesquisa sobre o grupo Caxambu do Salgueiro. O trajeto parte da Praça Saens Peña e segue pela rua General Roca, principal via de acesso ao morro, onde vivem cerca de seis mil pessoas.

“Diálogos entre os saberes”

Antes da partida, Magali Romero Sá, coordenadora da Cátedra Oswaldo Cruz e professora do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS/COC/Fiocruz), dá as boas-vindas aos participantes e destaca a relevância da iniciativa. “Trabalhamos com diálogos entre os saberes para as transformações planetárias, mapeando conhecimentos tradicionais e identificando como as mudanças climáticas estão impactando as comunidades”.

No Salgueiro, o Imersidades busca compreender um território de vulnerabilidade social, a partir de questões como agrobiologia, clima e cuidados com a terra e o meio ambiente, explica Emerson: “Isso dentro da perspectiva de cuidado global, mas pensando no nosso quintal, nas ações que desenvolvemos e nos patrimônios que abrigamos. Aqui nós temos um patrimônio natural e cultural, que é a Floresta da Tijuca, patrimônios materiais, como a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias, e algumas construções da época colonial, e imateriais, como o Caxambu do Salgueiro”.

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Em edificação centenária, a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias atende atualmente 125 crianças do Ensino Fundamental

Na subida do morro, diante de um ecoponto da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), Emerson destaca que a questão dos resíduos sólidos afeta o dia a dia dos moradores: “Há poucos pontos de coleta na comunidade, causando extravasamentos. Fica complicado transitar com pontos de coleta cheios de lixo. Quando chove, os resíduos mal depositados e não recolhidos descem e entopem canaletas e bueiros. É uma questão de meio ambiente. O problema surge no morro, mas impacta o asfalto”.

Mais adiante, é hora de conhecer a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias, edificação centenária, em estilo eclético, reinaugurada pela Prefeitura do Rio em outubro, após ter sido afetada por um deslizamento de terra durante as chuvas ocorridas em fevereiro de 2023. Gerações do Morro do Salgueiro já estudaram na unidade, que atualmente atende 125 crianças, da Educação Infantil ao 3º ano do Ensino Fundamental. Originalmente uma fábrica do início do século passado, o prédio se tornou sede escolar na década de 1960 e, em 1976, recebeu o nome atual, em homenagem ao profissional que salvou uma criança em um incêndio ocorrido na região. Diretora da instituição, Sibelli da Silva Carvalho abre as portas da escola para o grupo. É hora do lanche e de muito burburinho no refeitório. Nas paredes das salas de aula e da biblioteca, a expressão da criatividade e dos sonhos das crianças da comunidade.

Na comunidade, cultivo de plantas medicinais e comestíveis é tradição

Após uma visita à quadra do Bloco Carnavalesco Raízes da Tijuca, antes ocupada pela premiada Escola de Samba Acadêmicos do Salgueiro, o grupo segue para a horta comunitária, criada, em 2019, pelo Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, para resgatar e preservar saberes ancestrais relacionados ao plantio de plantas medicinais e comestíveis. O cultivo faz parte da história ancestral da comunidade. “Há vários moradores que plantam essas ervas em seus quintais e canteiros. Vamos fazer um trabalho para identificar e mapear esses pontos na comunidade”, adianta Emerson.

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Robson Basílio explica a rotina na horta comunitária
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Tio Dadá é guardião de saberes sobre ervas medicinais

Robson Basílio, que aprendeu a lidar com as plantas com a avó e a mãe, é o responsável pela horta comunitária, que reúne várias espécies. O espaço é fomentado pela Prefeitura do Rio, por meio do programa Hortas Cariocas, iniciativa de promoção à segurança alimentar, educação ambiental e geração de renda. Parte da produção de verduras, frutas e hortaliças é destinada à creche e às duas escolas em funcionamento no morro. Na comunidade, ele também transforma pequenos lixões em canteiros produtivos e participa de mutirões de reflorestamento. Além disso, faz um trabalho de educação ambiental, pois vai à creche e às escolas falar com as crianças sobre a questão do lixo, para que elas repliquem esse saber. “Às vezes, o morador ou a moradora fazem um montinho de lixo e põem fogo. E ele pode se alastrar. É preciso, então, realizar um trabalho de conscientização”, observa Emerson.

O trabalho de reflorestamento conta com uma parceria com a Fiocruz, por meio do Terrapia – Alimentação Viva e Agroecologia na Promoção da Saúde, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), que promove cursos e atividades focadas em alimentação saudável, compartilhando conhecimentos, agroecologia, sustentabilidade e práticas de cultivo e preparo de alimentos vivos.

Segundo o jornalista, que integra o Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, há mais de cem anos, as plantas são usadas no cardápio da comunidade, assim como no preparo de xaropes e remédios cicatrizantes e calmantes. É um conhecimento que passou a ser compartilhado e valorizado pela Equipe de Saúde da Família do Centro Municipal de Saúde Heitor Beltrão. Às sextas-feiras pela manhã, há atendimento médico no Instituto Sal-Laje, voltada para pessoas da comunidade com dificuldade de locomoção, como gestantes e idosos.

Jongo é louvação aos antepassados e resistência das comunidades negras

Na subida para o Instituto Sal-Laje, parada final do trajeto, um grande mural, pintado pelo coletivo artístico Negro Muro, homenageia 11 grandes nomes da comunidade, entre eles, Ana Bororó, Joaquim Casemiro Calça Larga, Geraldo Babão e Maria Romana. Após uma caminhada até “o meio do morro”, é hora de sentar e acompanhar o jongo ou caxambu, que tem suas raízes nos saberes e crenças dos povos africanos. No Brasil, consolidou-se entre os escravizados que trabalhavam nas lavouras de café e de cana-de-açúcar, principalmente no Sudeste e segue sendo praticado em áreas urbanas e rurais da região. É uma forma de louvação aos antepassados, de consolidação das tradições afrobrasileiras e de resistência cultural das comunidades negras.

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No Instituto Sal-Lage, parte do grupo que participou do Imersidades se reúne para um registro

“Há 14 comunidades jongueiras no Estado. Na capital, somos duas: Caxambu do Salgueiro e Jongo da Serrinha, em Madureira. É uma expressão afrodiaspórica, de base colonial, que se mantém viva até hoje, apesar das fragilidades existentes nas favelas”, explica Emerson, que faz parte do grupo cultural Caxambu do Salgueiro, assim como Marcelo da Paz Rocha, mestrando do PPGPAT e responsável pelo almoço que encerrou as atividades do Imersidades. Integrante da quinta geração do Quilombo do Brejal, em São Pedro dos Ferros, na zona da mata de Minas Gerais, certificado em maio deste ano pela Fundação Cultural Palmares, ele preparou um prato típico da região: frango com quiabo à moda mineira e angu.

Socialização, reconhecimento e visibilidade

Para Analice Pinto Braga, doutora pelo PPGHCS e assessora de Relações Internacionais na Fiocruz, a atividade proporcionou um “debate bastante rico”, que inclui história, patrimônio e políticas urbanas. “Havia pessoas de diferentes idades, interesses e olhares. Acho que foi um espaço interessante de socialização. Espero que se expanda para diferentes partes da cidade”. Geógrafo, mestrando na Universidade Federal Fluminense (UFF), Elinton Fábio Romão também elogiou a iniciativa. “Achei incrível saber de tanta história de uma comunidade tão próxima. Uma história linda e invisibilizada”, avalia ele, que pesquisa a produção do espaço urbano e a segregação socioespacial. Na Fiocruz, atua como bolsista de um projeto de mapeamento participativo de saberes tradicionais nas comunidades de Maré e Manguinhos. “Este campo na comunidade do Salgueiro ajuda a compreender como as práticas de saberes tradicionais se mantêm na atualidade”, pontua.

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Pausa para o frango com quiabo à moda mineira
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No mural, personalidades do Morro do Salgueiro

Sobre o território escolhido para a 2ª edição do Imersidades, a antropóloga Regina Abreu, professora do Programa de Pós-Graduação em Memória Social (PPGMS) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), destaca a peculiaridade do patrimônio paisagístico do Morro do Salgueiro e pontos do trajeto, como as hortas comunitárias, a quadra onde surgiu a Acadêmicos do Salgueiro, o jongo e a cozinha tradicional. “O percurso apresenta patrimônios não reconhecidos pelo Iphan, mas que estão em processo de patrimonialização”, diz ela, coordenadora do Observatório do Patrimônio Cultural do Sudeste, que divulga pesquisas sobre o tema e registra várias manifestações culturais da região, como o jongo e a folia de reis. Seis pessoas da Unirio, entre professores e alunos, participaram da aula-experimento, que foi gravada e será exibida no site do projeto.