A Casa de Oswaldo Cruz falou muitas línguas ao longo de 2025, por meio de ações de internacionalização em educação e pesquisa. Ao mesmo tempo em que abriu suas portas para instituições, professores, pesquisadores e alunos de vários países, circulou mundo afora, compartilhando saberes e consolidando a sua excelência nas áreas de história das ciências e da saúde, patrimônio cultural e divulgação científica. Além de ter fortalecido a sua atuação em redes de conhecimento globais, promoveu e participou de intercâmbios acadêmicos, cursos e eventos internacionais, reforçando os investimentos para atender à diretriz de internacionalização da Fiocruz.
Professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde (PPGHCS) da Casa de Oswaldo Cruz, André Felipe Cândido da Silva foi até o outro lado do mundo para participar de um workshop promovido, em outubro, pelo Centro de Pesquisa para Saúde e Bem-Estar, da Universidade Xangai, na China, e agora colabora na formação de uma rede de pesquisa focada em saúde e bem-estar, com pesquisadores do Sul Global [Confira entrevista]. No fim de julho, foi a Casa quem recebeu pesquisadores dos Estados Unidos para a Escola Internacional de Inverno, coordenada por Gilberto Hochman, professor do PPGHCS e pesquisador do Departamento de Pesquisa em História das Ciências e da Saúde (Depes), e ministrada em parceria com o Instituto de História da Medicina da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos .
Dias antes do curso ofertado em conjunto com a instituição norte-americana, pesquisadores das ciências sociais e naturais de vários países estiveram no Rio de Janeiro para o seminário internacional Mudanças climáticas e desafios planetários, da Sociedade Latino-americana e Caribenha de História Ambiental (Solcha). Doutorando do PPGHCS, onde pesquisa o problema da malária no Vale do Tietê no século 20, Elder Saggioro descreveu o evento da Solcha como uma experiência ímpar: “As atividades proporcionaram uma rica troca de saberes entre pesquisadores e alunos de diferentes países. Foi um evento de grande impacto para minha formação e de inspiração para agendas de pesquisa”.
Curso em espanhol, evento da Rede Iberoamericana e Encontro às Quintas
Em agosto, a Casa de Oswaldo Cruz uniu instituições da América Latina e da Amazônia em uma iniciativa que durou todo o segundo semestre. Coordenado pelo historiador Jaime Benchimol, professor do PPGHCS, o curso Diálogos latino-americanos em saúde, ciência e ambiente foi oferecido como disciplina de pós-graduação do PPGHCS e das instituições parceiras: Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), Universidade de Antioquia e a Universidade Nacional da Colômbia. Com aulas em português e espanhol, a atividade reuniu docentes e pesquisadores da Fiocruz, da Universidade de São Paulo (USP), de universidades parceiras na Colômbia e de outras instituições internacionais, como o Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), da França.
❝ As atividades proporcionaram uma rica troca de saberes entre pesquisadores e alunos de diferentes países. ❞
Elder Saggioro
Aluno do PPGHCS
O semestre foi movimentado também pelo 9º Encontro da Rede Iberoamericana de História da Psiquiatria, coordenado por Ana Teresa Venancio, professora do PPGHCS, com organização conjunta do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em História, Poder e Práticas Sociais da Unioeste. O evento reuniu pesquisadores renomados, como Rafael Huertas (Instituto de História-Conselho Superior de Investigações Científicas), e jovens em formação.
Doutorando do PPGHCS, Paulo Vitor Guedes de Souza apresentou sua pesquisa sobre masculinidades, cultura e subjetividades no Brasil: “Para além do plano acadêmico, o encontro foi marcado por trocas afetivas importantes. Encontrei colegas que já conhecia pela internet e que são referência nas pesquisas da área. O evento frisou a importância da internacionalização, entendida como diálogo e circulação de ideias, e não como simples valorização do que vem de fora”, declarou ele, que foi selecionado no Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) da Capes e está no Reino Unido.
O diálogo entre a Casa e instituições estrangeiras se deu também durante o Encontro às Quintas, atividade acadêmica coordenada pelo sociólogo Marcos Chor, professor do PPGHCS. A programação contou com os conferencistas como Antônio Costa Pinto (Universidade Lusófona, Lisboa), Paula Sedran (Conicet/UADER, Argentina) e Ayah Nuriddin (Universidade Yale, EUA). Além de disciplinas oferecidas em conjunto com professores estrangeiros, como Capitalismo multiespécies: ciências da vida e desenvolvimento agrícola na história ambiental e econômica global do século 20, ministrada por André Felipe Cândido da Silva e Tomas Bartoletti (Escola Técnica de Zurique, na Suíça), foi realizado um minicurso sobre doenças crônicas e políticas da invisibilidade, coordenado pelos professores do PPGHCS Luís Alves e Juliana Mazoni, com a participação de Ilana Löwy, do Instituto Nacional de Saúde e de Pesquisa Médica Recherche (Inserm).
Projeto franco-brasileiro é destaque nas iniciativas do patrimônio cultural
Já o Programa de Pós-Graduação em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde (PPGPAT) deu continuidade ao projeto AMIS (Arquivo-Mídia-Imagem-Sociedade), que reúne pesquisadores de instituições francesas e brasileiras. Desde o início do projeto, em 2021, foram realizados três eventos internacionais, organizados por Luciana Heymann, professora do PPGPAT, em parceria com integrantes do AMIS filiados a instituições do Rio de Janeiro. O mais recente, 8º Seminário Patrimônio Documental em Perspectiva: novas tecnologias, usos e desafios, ocorreu em novembro e contou com palestras de Agnès Magnien (Ministério da Cultura da França) e Isabelle Gaillard (Universidade Grenoble-Alpes). Este ano, serão finalizados os produtos previstos no projeto: “Ao reunir pesquisadores(as), alunos(as) e especialistas de instituições brasileiras e francesas, oriundos de campos disciplinares diferentes, o AMIS tem proporcionado diálogos muito interessantes acerca do patrimônio audiovisual, na França e no Brasil, suas condições de circulação e uso”, destacou Luciana.
Ao longo do 2025, o PPGPAT lançou o livro Patrimônio Cultural, Ciência e Inovação: Desafios Contemporâneos, organizado por Marcos José Pinheiro e Carla Coelho, respectivamente, diretor e assistente técnica da vice-diretoria de Patrimônio Cultural e Divulgação Científica da Casa, e António Candeias e Sara Valadas, da Universidade de Évora; e realizou dois encontros da série Diálogos latino-americanos em conservação fotográfica.
Na divulgação científica, uma análise da comunicação em países lusófonos
Um dos projetos contemplados no edital para o Programa de Excelência em Pesquisa Internacional (Proep-Inter), desdobramento da parceria entre a Casa e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal (FCT), é coordenado no Brasil por Luisa Massarani, professora do Programa de Pós-Graduação em Divulgação da Ciência, Tecnologia e Saúde (PPGDC) Juntamente com as universidades Nova de Lisboa, Lisboa e Coimbra, em Portugal, e duas instituições africanas, eles vão mapear e analisar as dinâmicas de comunicação da ciência, no Brasil, Portugal e países africanos de língua portuguesa. Em outro trabalho em conjunto com instituições portuguesas, duas docentes e uma egressa do programa vão participar da realização de estudos de público no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, como parte de um acordo de cooperação internacional com a Universidade de Lisboa e a Universidade do Porto. Além da atuação de Luis Amorim, professor do PPGDC, na atual diretoria da Red de Popularización de la Ciencia y de la Tecnología en América Latina y en el Caribe (RedPOP), docentes do programa participaram assiduamente dos eventos por ela promovidos, como o 19º Congresso RedPOP 2025.
Os docentes do programa estão envolvidos ainda nas discussões para a formação da Red de Programas de Formación para la Comunicación Pública de la Ciencia y Tecnologia en América Latina. Há um cronograma de trabalhos conjuntos para este ano de 2026, segundo Marina Ramalho, coordenadora do PPGHCS: “O campo acadêmico da divulgação científica é relativamente recente no Brasil e internacionalmente. Participar de ações de pesquisa e extensão em parceria com instituições estrangeiras potencializa a consolidação brasileira no campo, ao mesmo tempo em que auxilia na nossa constante atualização”.
Cátedra Oswaldo Cruz, Proep-Inter e Assessoria Técnica de Cooperação
“O ano de 2025 consolidou a área internacional da Casa com parcerias importantíssimas, na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos”, avaliou Magali Romero Sá, coordenadora da Cátedra Oswaldo Cruz Cátedra Oswaldo Cruz de Ciência, Saúde e Cultura da Unesco, que busca promover o diálogo entre saberes científicos, tradicionais e populares como instrumentos de enfrentamento das transformações planetárias. Além de duas edições do Imersidades, com foco nos debates sobre mudanças climáticas, iniquidades sociais e saberes de comunidades tradicionais, a Cátedra realizou uma conferência com Melissa Creary, professora da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e uma mesa-redonda, com a participação de professores da Johns Hopkins.
Coordenadora da Assistência Técnica de Cooperação, que desde 2006, atua para ampliar as relações da Casa com entidades e instituições científicas do Brasil e do exterior, Liene Wegner observou que a Fiocruz já nasceu internacional, em razão da circulação de cientistas e da produção científica de destaque internacional produzida por nomes como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. Segundo ela, em geral, as parcerias na área de pesquisa costumam se dar a partir do contato entre pesquisadores, que depois podem evoluir para uma relação formalizada por meio de instrumentos que regulam os acordos entre as instituições. “A internacionalização é um processo”, definiu Liene, citando como uma das várias ações realizadas pelo setor, no ano passado, a parceria com a Universidade Nacional Autônoma do México, com quem a Casa, vai realizar o 5º Congresso Internacional de Arquivos Digitais e o 3º Seminário Internacional de Patrimônio Digital, em maio.
O processo de internacionalização das áreas de pesquisa e educação é uma das prioridades da Casa e deverá ser expandido, afirmou Dominichi Miranda de Sá, vice-diretora de Pesquisa e Educação da Casa. “Queremos nos consolidar como um centro internacional estratégico e inovador até 2030”, disse, observando que a unidade tem tradição e qualidade reconhecidas na internacionalização da sua produção científica, em especial, por meio da História, Ciências, Saúde – Manguinhos, dos eventos e publicações dos programas de pós-graduação e das atividades do Museu da Vida Fiocruz.
Dominichi reiterou o suporte à mobilidade docente/discente, às missões de prospecção para a indução de novas parcerias e à consolidação de redes de pesquisa internacionais, como as estabelecidas por meio do recente edital Proep Inter/CNPq/FCT Portugal. “Temos procurado oferecer apoio a todas essas atividades por meio da nossa competente Assessoria Técnica de Cooperação”. Além disso, ela destacou o interesse da Casa em estruturar um projeto de internacionalização orientado pela cooperação Sul-Sul. “Este é outro movimento que já identifico entre nós, como nos cursos internacionais realizados em 2025, com docentes e alunos estrangeiros aqui conosco, sendo a Casa um vetor de atração, um polo formador, com coprodução, formação conjunta e circulação de conhecimento em múltiplas direções”, concluiu.