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Diego Armus: “História não dá lições, nem define roteiro detalhado para evitar erros”

12/12/2023

Em nota de pesquisa publicada em HCS-Manguinhos, pesquisador compartiha o que aprendeu como historiador em tempos de Covid-19  

Arte: Elias SousaImagem de um homem, do peito para cima, com um fundo verde repleto de imagens de vírus na cor rosa

 

Por Karine Rodrigues

Em meio à profusão de interrogações surgidas com a pandemia do novo coronavírus, uma pergunta foi frequentemente direcionada aos pesquisadores da história da saúde e das doenças: “O que diz a história”? A questão parecia insinuar que os profissionais do campo poderiam, a partir da análise das crises sanitárias do passado, fornecer ensinamentos úteis para enfrentamento da Covid-19, avalia o historiador Diego Armus, em entrevista por telefone de Buenos Aires, onde estava passando uma temporada. Para ele, porém, a história não funciona como “uma espécie de GPS em relação ao presente”.  

Durante quase todo o século 20, a doença de Chagas foi pensada como uma efermidade regional, mas bastou chegar aos Estados Unidos para se falar em epidemia da doença. O que quero frisar é que pandemia, endemia, epidemia são, em grande medida, rótulos políticos

Na opinião do professor do Swarthmore College, na Pensilvânia, Estados Unidos, a história só pode oferecer “diretrizes gerais” sobre o passado, “não dá lições e nem pode definir um roteiro detalhado para evitar erros”. Ela está mais para um queijo suíço, com seus inúmeros buracos, metáfora que Armus toma de empréstimo do historiador da arte Ernst Gombrich (1909-2001) e cita na nota de pesquisa publicada na revista História, Ciências, Saúde - Manguinhos, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).  

No texto, Armus compartilha o que aprendeu durante a pandemia de Covid-19, reflete sobre  o desafio de narrar a história das epidemias e discorre sobre formas pelas quais o presente pode lançar luz sobre o estudo do passado: 

“Muito não sabemos sobre as epidemias do passado. Diante dessas lacunas, podemos usar a nossa intuição e uma certa sensibilidade, mas sempre limitados à dura regra da evidência. Com esses pressupostos, conjecturamos o que passou. E como ocorre com muitos assuntos, as evidências nem sempre estão disponíveis. Então, trata-se de articular bem a questão, mesmo sem poder respondê-la. Voltando à metáfora de Grombich: trata-se de reconhecer a existência dos buracos, porque fazem parte do queijo”, escreve o historiador. 

Armus faz menção à metáfora do queijo suíço ao citar a primeira das oito lições que ele conta ter aprendido com a pandemia de Covid-19. Em resumo, segundo ele, “escrever e pensar sobre uma epidemia é muito mais fácil do que vivê-la”, pois a realidade é mais complexa do que uma “formulação teórico ou intepretativa”. 

Na nota, chama atenção para o fato de que as incertezas que marcaram a experiência da pandemia forjaram uma proliferação de discursos e reações e que “alguns historiadores têm feito todo o possível” para integrar o grupo dos que, “sem discrição, modéstia e cautela”, buscaram improvisar ou explicar a crise gerada pelo novo coronavírus com “generalizações e simplificações”.  

Durante conversa, Armus, que ministra disciplinas sobre história latino-americana, com ênfase em questões urbanas e socioculturais, discorre sobre o que considera ter sido o principal ensinamento da Covid-19: “Creio que a pandemia tem deixado algumas reflexões para os historiadores. Para mim, a lição mais importante é que temos que ser muito mais humildes frente aos problemas históricos. Precisamente por tudo que não conhecemos”. 

Para o historiador, o entendimento de que a história pode oferecer um conjunto de interpretações úteis para se lidar com problemas do presente parece circular mais entre os que se dedicam à história da saúde pública, ao contrário dos pesquisadores da história das doenças, como ele, que tendem a desconfiar dessa possibilidade:  

“Às vezes, força-se um pouco ao mirar o presente a partir de questões que funcionaram ou não nas interpretações do passado. Parece que o que há por trás de tudo isso é como nós lidamos com as incertezas. Muitas vezes, cremos que entendemos muito bem uma epidemia do passado e, na verdade, não é bem assim. O passado nos mostra quão complexo é o presente e quão cuidadoso temos que ser quando tentamos buscar respostas e políticas frente as insurgências do presente”. 

A segunda lição aprendida, diz Armus, é sobre “o risco de olhar para o passado como se fosse uma antecipação do presente”. Analisar questões da Covid-19 por meio de uma transferência mecânica, desconsiderando tempo e espaço específicos, pode resultar em leituras anacrônicas do passado, enfatiza o historiador. 

A importância de se identificar o que as epidemias têm de sigularidades e semelhanças é a terceira lição. No texto, ele faz referência aos ensinamentos de Charles Rosenberg (1989), que cita a existência de uma “dramaturgia mas ou menos partilhada” por quase todas as epidemias. Armus alerta para o fato de que a repetição dessa cena comum na narrativa de qualquer epidemia “pode, muito facilmente”, levar o historiador a desconsiderar as especificidades de cada uma delas. A dimensão global não explica tudo, diz.  

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“Cada epidemia é única. Estou convencido que os fenômenos globais são muito importantes, mas a melhor maneira de entender fenômenos históricos é quando eles estão estudados de modo localizado. Se ao mirarmos o pano de fundo global não capturarmos as dimensões locais, estaremos perdendo grande parte do filme”, pondera, exemplificando que a Covid-19, embora global, deu-se de forma muito distinta na Argentina e no Brasil. 

A quarta lição diz respeito à política e às reações das pessoas frente à falta de respostas eficazes da medicina em torno dos tratamentos, dois assuntos que Armus considera “muito densos e complexos”. Sobre ambos, ele aprendeu que deve se “evitar explicações extremamente simplistas a respeito de política em tempos de epidemia”. No texto, enumera perguntas para contextualizar o que diz e questiona se a natureza de um regime político explica os melhores ou piores desempenhos da saúde pública nas epidemias. 

A quinta lição problematiza o fim de uma pandemia: “O início e o fim de uma epidemia são questões saturadas por temporalidades complexas. Doença, endemia, epidemia, pandemia são rótulos relativos e também políticos. A definição de pandemia ou epidemia associada ao surgimento sem aviso prévio, com muita morte em pouco tempo é muito insatisfatório”.  

Se há algo que o passado nos revela é que outras epidemias foram tão ou mais trágicas do que o que estamos vivenciando. Isso pode nos ajudar a olhar para o que estamos vivendo com um olhar sutil, uma sensibilidade que, quero acreditar, a história deveria ser capaz de nos oferecer 

Armus chama atenção para fatos ocorridos em outras epidemias e com o novo coronavírus. “Em Nova Iorque, onde moro, o contágio tem aumentado nos últimos meses, depois de a pandemia ter sido declarada encerrada, pelo menos em termos de política de saúde. A pandemia de Aids existe há 40 anos. E a tuberculose foi discutida primeiro como uma epidemia e depois como uma doença infecciosa crônica. Durante quase todo o século 20, a doença de Chagas foi pensada como uma efermidade regional, mas bastou chegar aos Estados Unidos para se falar em epidemia da doença. O que quero frisar é que pandemia, endemia, epidemia são, em grande medida, rótulos políticos”.   

Como sexta lição, o historiador diz que “doenças e epidemias fazerm parte da experiência humana” e nem sempre são evitáveis: 

“As doenças e epidemias são fenômenos biológicos, culturais, sociais, culturais, econômicos e políticos e, por serem tão complexos, não podem ser explicados por apenas uma dessas dimensões. Nem podem ser explicadas na perspectiva do que, no jargão do futebol, é comentar o jogo com o jornal de segunda-feira, quando as incertezas de domingo já passaram. As relações entre ambiente e sociedade têm sido e continuarão a ser instáveis. E se a ação do homem foi e é relevante para essa instabilidade, nem tudo o que acontece nessa relação deve ser automaticamente atribuído a sua ação, intencional ou não, mais ou menos perversa, mais ou menos previdente. Acredito que esta seja uma questão crucial quando se avalia, historicamente, o desempenho da ciência ou das políticas de saúde pública”. 

A penúltima lição complexifica a referência à Covid-19 como se fosse uma crise sem precendentes na história da humanidade, que já vivenciou mais recentemente, por exemplo, Aids, SARS, H1N1. “Se há algo que o passado nos revela é que outras epidemias foram tão ou mais trágicas do que o que estamos vivenciando. Isso pode nos ajudar a olhar para o que estamos vivendo com um olhar sutil, uma sensibilidade que, quero acreditar, a história deveria ser capaz de nos oferecer”.  

Por fim, na última lição, Armus cita as vacinas, com todas as complexidades presentes no processo de sua descoberta e uso. Ele considera “historicamente interessante os ajustes e acomodações que marcam a chegada de uma vacina produzida no centro e seu impacto nas realidades nacionais específicas e variadas da América Latina”.  

Perguntado sobre a agenda de investigação da história das doenças na América Latina, Armus avalia que as doenças tropicais seguem um tema forte na região e destaca o lugar do Brasil: “A Casa de Oswaldo Cruz, tão firmemente integrada à Fiocruz, não tem equivalente na América Latina e suspeito que isso também seja verdade em outras partes do mundo, incluindo o agora rotulado Norte Global. A historiografia brasileira da saúde pública e das doenças e enfermidades é muito mais desenvolvida que na Argentina, México e outros países da região”, opina.  

Embora o tema das doenças tropicais seja muito presente no Brasil, o historiador considera que se está prestando mais atenção às enfermidades crônicas e urbanas (talvez porque na segunda metade do século 20, a América Latina tenha se tornado um subcontinente com altas taxas de urbanização) e, de modo muito incipiente, às enfermidades relacionadas aos estilos de vida. Cita, por exemplo, a tuberculose e os estudos sobre males relacionados ao consumo de tabaco, como o câncer, tema de pesquisa que desenvolve atualmente. 

Armus está atualmente trabalhando em vários projetos: uma nova versão de The Impure City. Saúde, tuberculose e cultura em Buenos Aires, que estende o período estudado até a atualidade, de 1870 a 2020; The Buenos Aires Reader, uma história sociocultural da Buenos Aires moderna; e uma história de tabagismo em Buenos Aires, de 1860 a 2020. 


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