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História do câncer de colo do útero e de doenças comuns entre os escravos têm apoio do Programa Papes

2012-05-24


Dois projetos de pesquisa apresentados por equipes da Casa de Oswaldo Cruz estão entre os 50 contemplados pelo edital do Papes, um programa da Fiocruz em parceria com o CNPq, que tem como objetivo dar apoio financeiro e estimular a criatividade e originalidade científica e tecnológica. Durante os próximos dois anos, cada equipe vai receber R$ 50 mil por ano, quando os profissionais devem apresentar os resultados obtidos.


A pesquisadora Tânia Salgado Pimenta lidera um dos grupos, e vai estudar as condições de saúde dos escravos e alforriados no país durante o século 19, a partir de um mosaico das doenças que mais faziam vítimas entre aquela população. A idéia é indicar as doenças, curas, condições de vida e morte, considerando a historiografia da saúde e da escravidão, com a finalidade de contribuir para a afirmação desse novo campo.


Tânia Pimenta chama atenção para um aspecto que dificulta as investigações: “Uma doença que hoje tem uma causa específica conhecida era identificada por nomes diferentes no passado ou, ao contrário, diversas moléstias causadas por diferentes agentes eram identificadas como se fosse a mesma enfermidade, já que os sintomas eram muito parecidos”.

 

Em uma etapa da pesquisa, os profissionais vão tentar definir os padrões de doenças de crioulos e da população branca. A historiadora diz que serão verificadas “a relação entre esses padrões e o perfil sócio-demográfico, a identidade étnica, a ocupação e o gênero desses indivíduos”. Os dados vão ser buscados em fontes seriais, sobretudo inventários post-mortem e registros de óbitos da Santa Casa da Misericórdia. A equipe pretende comparar os dados obtidos com padrões de enfermidades encontrados em outras áreas escravistas e espaços da diáspora no século 19, sobretudo em Cuba.

 

Eis algumas questões que se pretende responder durante a pesquisa: Como as doenças afetavam as comunidades escravas em contextos diferentes? Quais as formações ecológicas, ambientais e a geografia nas áreas de Mata Atlântica e a formação da plantation cafeeira nas duas primeiras décadas do século 19? E nas áreas do açúcar no Norte fluminense? Como pensar as condições de vida em áreas de baixada e de cana de açúcar?

 

 

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Cirurgião Negro Colocando Ventosas.
Aquarela, 1826. Jean Baptiste Debret

Mais perguntas: Qual a dieta alimentar nas diferentes áreas? Havia diferenças e semelhanças em áreas açucareiras, cafeeiras e ou dedicadas às economias de alimentos? Qual o impacto da má nutrição? E sobre a mortalidade infantil? Tânia Pimenta ressalta a importância de se avançar, indo além dos cruzamentos com a demografia do tráfico: “Seria importante comparar doenças e índices de mortalidade com períodos de safra, colheita e plantio”.

 

 

O outro estudo, uma parceria que envolve profissionais da Casa de Oswaldo Cruz (COC) e do Instituto Nacional do Câncer (Inca), será sobre a trajetória do controle do câncer de colo do útero no Brasil, explica Luiz Antonio Teixeira, seu coordenador, adiantando que a equipe pretende analisar “os saberes, práticas e políticas públicas relacionadas ao controle dessa doença durante a segunda metade do século 20”. Verifique o site História do câncer: atores, cenários e políticas públicas

 

O câncer do colo do útero é considerado um dos graves problemas de saúde pública no Brasil, atingindo principalmente as mulheres com maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Este é o segundo tipo de câncer mais comum na população feminina brasileira, ficando atrás apenas do de mama, e corresponde à quarta causa de morte de mulheres, por câncer, no país. “Nosso objetivo é investigar o processo de desenvolvimento das ações de controle do câncer de colo de útero no Brasil, na segunda metade do século 20, analisando o desenvolvimento dos conhecimentos e práticas médicas sobre a doença e sua consolidação como políticas de saúde”, diz Teixeira.

 

Marco Antonio Porto, médico do Inca engajado no projeto, destaca que, entre 1900 e 1910, os ginecologistas brasileiros desenvolveram um modelo original de prevenção à doença, baseado na observação utilizando um aparelho chamado colposcópio. No final dos anos 1960, outro teste, o Papanicolaou, passou a ser feito no país e, a partir da década de 1970, as primeiras campanhas para rastrear a doença começaram nos estados mais ricos, utilizando aquele teste. Ele lembra que a reforma sanitária do final dos anos 1980 e a ação dos movimentos sociais em defesa da saúde da mulher levaram à uma política nacional de controle da doença no país. Nos anos 1990, com o Sistema Único de Saúde, o Inca passou a coordenar essa política.

 

Em 1996, iniciou-se a implantação de um programa de controle do câncer de colo do útero. Dois anos depois, o Ministério da Saúde encampou o projeto, e iniciou o rastreamento da doença nacionalmente. As campanhas foram suspensas em 2002 e a iniciativa transformou-se em um programa permanente, que passou a enfatizar o aperfeiçoamento da rede de atenção à doença, a assessoria técnica aos estados e o monitoramento de suas ações.

 


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