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Casa de Oswaldo Cruz transfere o maior acervo de história da saúde pública e da ciência do país

2021-10-14

Patrimônio valioso agora está no CDHS, edifício projetado para atender especificidades da área de preservação dos acervos da Fiocruz  

Imagem: Jeferson Mendonça. 

Homem de máscara aparece entre prateleiras manuseando acervos

Por Karine Rodrigues

O mais importante acervo de história da saúde pública e da ciência do país transitou incólume pela nervosa Avenida Brasil, na zona norte do Rio, ao longo dos últimos meses. Dentro de cerca de 7 mil volumes de diferentes tipos e tamanhos, numerosas preciosidades: um livro sobre a saúde dos povos, de 1757; registros da atuação de Oswaldo Cruz no combate a epidemias; o primeiro esboço do Pavilhão Mourisco, sede da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); fotografias de insetos em Lassance (MG), onde Carlos Chagas descobriu a doença que leva seu nome, em 1909; diários das expedições científicas ao Norte e Nordeste, no início do século 20; estudos sobre HIV/Aids e biotecnologia. 

Construímos um prédio voltado para a preservação do acervo e que atende às exigências de conservação, que não são poucas. Vão desde o clima e a iluminação à pintura do mobiliário e o acondicionamento

Transportado em caminhões adesivados com o nome da Fiocruz, o acervo, constituído por documentos de diferentes gêneros que datam do século 18 aos dias atuais, divididos entre o Departamento de Arquivo e Documentação (DAD) e a Biblioteca de História das Ciências e da Saúde (BHCS) da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), deixou o prédio situado na Expansão do Campus Manguinhos, junto ao Complexo da Maré, e foi para o lado oposto da Avenida Brasil, na área onde a instituição surgiu, em 1900. Finalmente, está em casa, na edificação construída especialmente para recebê-lo: o Centro de Documentação e História da Saúde (CDHS), sede da Casa, responsável pela guarda e difusão dessas fontes de informação. 

Embora tenha sido uma mudança de trajeto curto, percorrido em pouco mais de dez minutos, a história da transferência é bem mais longa. Começa em 2006, quando a ideia de se construir um prédio para abrigar o acervo composto por material arquivístico e bibliográfico surge pela primeira vez na Casa. Mais de uma década depois, em 2018, o CDHS é inaugurado, com elementos sustentáveis, que valoriza a iluminação natural e o uso da água das chuvas, e uma estrutura que possibilita ampliar ainda mais o nível de segurança na gestão do valioso material, composto por raridades, entre as quais, arquivos considerados patrimônio da humanidade pela Unesco, como os de Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, e negativos de vidro que revelam momentos pioneiros da pesquisa biomédica e da medicina experimental no país, com registros dos primeiros anos do Instituto Oswaldo Cruz, que mais tarde viria a se chamar Fiocruz. 

Mulher de máscara, entrega documentos à uma pessoa de boné e máscara. Ambas usam óculos. Elas estão diante de prateleiras vazias.
Com medidas de proteção, equipe se revezou para fazer a mudança. Foto: Jeferson Mendonça.


O CDHS abriu também as portas para uma maior integração dos setores da COC. Criada há 35 anos, em plena redemocratização, quando se tornou mais evidente a importância da valorização da memória do país, ela surgiu para preservar a história da Fiocruz, das ciências e da saúde. Aos poucos, a unidade técnico-científica ampliou sua atuação para as atividades de pesquisa, educação, documentação e divulgação da história da saúde pública e das ciências biomédicas, realizadas até 2018 de forma dispersa, em prédios separados. 

“É um sonho que se inicia em 2006 e se realiza com a vinda do acervo. Isso vai possibilitar à Casa uma experiência que nunca vivemos. Agora estamos todos juntos, dentro de um mesmo campus”, destaca seu diretor, Marcos José de Araújo Pinheiro, ao avaliar que a transferência foi muito bem-sucedida. A mudança foi devidamente registrada, com fotos, vídeos e documentos, que constituem agora mais uma etapa da memória da Fiocruz e uma experiência importante a ser compartilhada entre as instituições de preservação cultural. “Desenvolvemos uma metodologia própria”, ressalta o diretor.  

Gerenciamento de riscos para garantir mudanças sem danos  

Se uma mudança doméstica é sinônimo de muito trabalho e expectativa, imagine transferir um acervo de importância ímpar, em conteúdo, valor e dimensão, que há 30 anos se avolumava no prédio da Expansão? Dá para imaginar o tamanho do alívio e da satisfação quando a última caixa foi retirada de dentro do caminhão e colocada na estante da nova casa. Para cada tipo de acervo havia uma conduta específica na retirada, translado e na recolocação. Sensação ainda melhor para as equipes envolvidas nos trabalhos, só mesmo quando se constatou que a transferência se deu sem qualquer avaria ao material.  

“Transferimos todo esse acervo sem incidente algum. Não tivemos uma perda, um rasgo, um dano. Nada, nada, nada”, enfatiza, com orgulho justificado, a vice-diretora de Gestão e Desenvolvimento Institucional da Casa de Oswaldo Cruz, Nercilene Monteiro, a Leninha, que está na unidade desde 2006. 

Para alcançar tamanho resultado, a Casa fez um longo planejamento, que incluiu a realização de um seminário sobre mudança de acervos, com a participação de outras instituições de guarda que já haviam realizado transferências. Um grupo de trabalho focado na conservação preventiva e no gerenciamento de riscos listou os problemas que poderiam vir a deteriorar o acervo. Além disso, a chefe da Biblioteca de História das Ciências e da Saúde (BHCS), Eliane Dias, traçou uma metodologia para a transferência do material da biblioteca, que foi criada em 1991 e reúne atualmente cerca de 80 mil itens, tema de sua dissertação de mestrado, defendida em um dos três programas de pós-graduação da Casa. O Departamento de Arquivo e Documentação (DAD) da Casa também elaborou metodologia para os distintos gêneros de acervo que precisaram ser transportados. 

Com os riscos estabelecidos, a etapa seguinte foi elaborar o projeto básico de contratação do serviço. O documento reuniu todas as cláusulas que a Casa considerou necessárias para garantir uma transferência satisfatória. “A especificidade que colocamos no termo de contratação nos possibilitou chegar a uma das melhores empresas do Brasil quando se trata de transferência de acervo”, avalia Leninha.  

Riscos existiam vários: furto da carga, acidente de trânsito na Avenida Brasil, chuvas. Para evitar molhar o acervo, por exemplo, foi estabelecido que a transferência seria realizada antes do período de chuvas da primavera. E, em caso de eventual chuva forte, não haveria translado. Mas foi preciso ir além quando a previsão meteorológica de tempo firme não se confirmou. “Havíamos acabado de carregar o caminhão quando começou a chover. Lacramos o veículo, fomos almoçar e a chuva passou. Para não sermos pegos de surpresa depois, alugamos tendas para a entrada da Expansão e do CDHS”, relata Eliane. 

Livros eram acomodados, um a um, nas caixas 

Embora afeitos a lidar com livros e documentos raros, as equipes da biblioteca e do DAD passaram por um treinamento com a equipe da empresa contratada, para dominar determinadas técnicas durante o processo de embalagem do material. Aprenderam, por exemplo, que pegar livros e inseri-los de uma só vez dentro da caixa constitui erro grave. A regra é acomodá-los, um a um, e não deixar qualquer espaço vazio entre eles. “Além disso, os livros mais frágeis precisam ser embalados em papel de seda antes de serem levados à caixa. E na hora de desembalar, o processo é o mesmo, ou seja, é tirado um a um”, diz a chefe da biblioteca, detalhando pormenores da mudança. 

Mulher com máscara transita entre duas estantes vazias carregando um documento. Ela está de máscara.
Diferentes tipologias de documentos exigiram cuidados diferenciados. Foto: Jeferson Mendonça.


A transferência do acervo foi um momento de muito trabalho, mas também de integração da unidade, que está há cerca de um ano e meio vivenciado o afastamento determinado pela pandemia de Covid-19. Para dar apoio às rotinas necessárias à mudança, a Casa solicitou uma ajudinha e conseguiu contar com um grupo de voluntários, formado por 33 pessoas. Eles se ocuparam do controle dos corredores e elevadores e acompanharam as atividades de carregamento e descarregamento do caminhão, controlando o fluxo. 

Na fase de embalagem, os 10 funcionários da biblioteca receberam também reforços de duas bibliotecárias e contaram com apoio de funcionários da empresa. Ainda assim, levaram seis semanas para acondicionar o material adequadamente dentro das caixas. “Achei até que seria mais pesado. Mas planejamos muito essa transferência e ela fluiu de forma tranquila”, avalia Eliane. Agora ela experimenta um misto de alegria e incredulidade. “Parecia que esse dia não ia chegar, mas chegou. Eu estou aqui!”, diz, aos risos, bem acomodada no novo espaço. 

Embora o material já esteja todo organizado, ainda é preciso aguardar o retorno ao trabalho presencial, suspenso em decorrência da pandemia de Covid-19, para que os usuários possam acessar, in loco, obras clássicas das ciências biomédicas e da saúde pública, coleções particulares dos primeiros cientistas de Manguinhos e de outros notáveis pesquisadores, como José Reis, Leônidas e Maria José Deane e Oracy Nogueira, com atuação, também, em áreas como Sociologia, História e Filosofia da Ciência, além da produção acadêmica e editorial da própria Casa de Oswaldo Cruz, entre inúmeros outros itens, como livros raros, cartazes das pioneiras campanhas de vacinação contra a poliomielite e depoimentos sobre a erradicação da varíola. 

Compromisso com a preservação 

Chefe do Departamento de Arquivo e Documentação (DAD) da Casa, Ana Roberta Tartaglia explica que, ao contrário do acervo bibliográfico, constituído majoritariamente por itens em suporte de papel, o acervo arquivístico é composto por itens com suportes materiais e gêneros documentais muito variados. Há, por exemplo, documentos textuais, cartográficos, iconográficos, sonoros, filmográficos e audiovisuais. Segundo ela, a transferência foi planejada para, logo após o transporte, o material ser desembalado e colocado em seu devido lugar, de acordo com os planos de ocupação desenvolvidos pelo Grupo de Mudança DAD. “Sem esse planejamento prévio e exaustivo, não seria possível ter hoje o acervo devidamente organizado. Agora, iremos iniciar a revisão das planilhas de localização topográfica de cada área de guarda, bem como as condições gerais de conservação do acervo, para ter domínio da organização da nova casa”, diz.

Panorâmica da nova sala de consultas. Duas luminárias pendentes iluminam a primeira área, com o pé direito mais alto. Outras luminárias em trilhos circundam a sala, que contém mesas e cadeiras para consulta. Ao fundo, com o pé direito mais alto, pessoas circulam na área onde ficam o balcão e algumas prateleiras.
Nova sala de consultas da biblioteca e do arquivo no CDHS. Foto: Jeferson Mendonça.


Desde 2015 na unidade e com experiência em outros órgãos, Tartaglia avalia que a Casa ocupa “um lugar diferenciado” entre as instituições do gênero. “É muito especial termos construído um prédio voltado para a preservação do acervo e que atende às exigências de conservação, que não são poucas. Vão desde o clima e a iluminação à pintura do mobiliário e o acondicionamento. Sempre houve um esforço para melhorar as condições do acervo. Mudar para esse prédio chancela esse compromisso que a Casa sempre teve com a preservação”, considera.  

De fato, acervos precisam de condições de guarda muito específicas, em ambientes com temperatura e umidade adequadas e um sistema efetivo de detecção e combate a incêndios a gás inerte. Para atender a essas exigências, a Casa levou um tempo após a inauguração do CDHS até realizar a transferência, explica a vice-diretora de Desenvolvimento e Gestão Institucional. Medições nos sistemas de ar-condicionado e de desumidificação nos depósitos foram feitas sistematicamente durante esse período com revisão de projeto e obras de intervenção até que se garantissem os padrões necessários definidos pela área de conservação da COC. 

O respeito aos pioneiros da Casa e a expectativa pelos encontros que hão de vir 

Se hoje o acervo sob a guarda da Casa se constitui como um conjunto de valor inestimável, fundamental para se conhecer a história da saúde do Brasil, há que se prestar o devido reconhecimento aos pioneiros da unidade. Quando iniciaram, os conhecimentos na área ainda engatinhavam no país. Não existia uma metodologia de organização de documentos e nem ambientes adequados para preservação do material. Mas sobrava disposição e interesse em manter viva a memória. Os negativos de vidro que hoje constituem patrimônio da humanidade e estão no CDHS, na década de 1980, passaram por uma mudança bem diferente da atual. Foram resgatados de um setor da Fiocruz e levados para o Pavilhão Mourisco em uma Brasília já rodada, por iniciativa de intrépidos servidores da recém-criada Casa de Oswaldo Cruz, como Wanda Weltman e Fernando Pires.  

Mulher com máscara transita entre duas estantes vazias carregando um documento. Ela está de máscara.
Acervo foi transferido do prédio da Expansão para o CDHS. Foto: Jeferson Mendonça.


“Os fundadores da Casa de Oswaldo Cruz foram muito exitosos nessa tarefa. O esforço deles foi imenso. Era quase um garimpo de documentos e objetos extremamente importantes para a história da ciência brasileira e da saúde pública. Eles traziam no carro deles, do jeito que tivessem que trazer, pois não existiam as condições, os recursos necessários. À época, a própria Fiocruz não tinha essa perspectiva da memória. Eles tiraram tudo isso do chão e é graças a essas pessoas que hoje temos todo esse material”, frisa Leninha, ressaltando que a expertise construída ao longo dos anos transformou a Casa em uma referência nacional e internacional para o campo da preservação de acervos. 

A Casa acaba de encerrar uma etapa, que também exigiu muitos esforços para se tornar viável política, técnica e financeiramente, na opinião do seu diretor, e se prepara para iniciar outra. Com a sede agora habitada pelos acervos, a expectativa é pelo retorno às atividades presenciais, quando a pandemia permitir. “Já enxergo isso aqui com vários alunos transitando, as pessoas convivendo e trocando ideias. O encontro casual tem um potencial que é indescritível. Por mais que tente expressar, acho que vai ser aquém da realidade”, diz Pinheiro.


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