Pibic reflete sobre a última década e se prepara para o futuro
O Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) da Casa de Oswaldo Cruz iniciou, em 2025, um novo ciclo. Após mais de uma década na coordenação, os pesquisadores Tamara Rangel Vieira e Rômulo Andrade se despediram do cargo e passaram a responsabilidade a Juliana Manzoni e Ingrid Casazza, também pesquisadoras da Casa. A mudança ocorre em um momento simbólico: de amadurecimento, expansão e consolidação, transformando rotinas, trajetórias e a compreensão sobre o papel da iniciação científica na instituição.
Em entrevista ao site da COC, Tamara Rangel, Juliana Manzoni e Ingrid Casazza fazem um balanço da última década e discutem os novos caminhos que se desenham para o programa.
❝ A iniciação científica dá coragem: o aluno percebe que pode trilhar caminhos que nem imaginava quando chegou.❞
Juliana Manzoni
Coordenadora do Pibic
Formação e diversidade como eixo central
Um dos marcos da última década foi a criação de uma agenda formativa contínua, com oficinas de escrita acadêmica, normalização , busca em bases de dados bibliográficos, além de atividades com as bibliotecas de História das Ciências e da Saúde e de Divulgação Científica e com o Departamento de Arquivo e Documentação, todos da COC. Tamara Rangel afirma que o programa “tem uma missão formativa”, oferecendo mais do que atividades executivas — um espaço de desenvolvimento intelectual e autonomia, permitindo aos participantes vivenciarem a rotina das atividades de pesquisa.
Outro fator importante é o ambiente construído para o programa de iniciação científica. Um estudante mais tímido é ouvido, outro se fortalece ao apresentar para o grupo, e a troca entre pares cria pertencimento. Para Ingrid Casazza, o programa “não forma só tecnicamente: forma pelo convívio”, pela construção de um espaço seguro para errar, aprender e tentar de novo. “O acolhimento é um fator que fideliza os alunos e cria vínculos duradouros com a Casa”, completa Tamara Rangel.
Ao revisitar a trajetória, as pesquisadoras destacam que o Pibic cresceu não só em número de bolsistas, mas também se diversificou. Ingrid Casazza pontua que, hoje, a instituição recebe estudantes de , diversidade que amplia repertórios e enriquece a circulação de ideias. Juliana Manzoni completa o raciocínio ao lembrar que “a iniciação científica dá coragem: o aluno percebe que pode trilhar caminhos que nem imaginava quando chegou.”
Essa transformação não é unilateral. Para Tamara, o Pibic também se transformou com o tempo e com seus estudantes, que trazem inquietações, interesses e outras linguagens para dentro da Casa. Ingrid reforça essa ideia quando lembra que, muitas vezes, “é o aluno que desloca o grupo e apresenta novos temas de pesquisa, novas perspectivas metodológicas”. A cada turma, algo se renova.
Quando a iniciação científica vira trajetória
Ao longo desses dez anos, muitas histórias cruzaram o programa. Algumas se tornaram trajetórias científicas completas. Alunos que chegaram receosos, descobrindo ainda o que era a pesquisa, hoje são pós-graduandos, professores e pesquisadores, dentro e fora do país. Para além das conquistas acadêmicas, o que permanece é a compreensão de que a iniciação científica pode ser ponto de partida, mas também pode ser destino. “É nesse espaço que muitos encontram pela primeira vez a ciência como horizonte profissional e como linguagem para compreender o mundo”, destaca Juliana.
Para ilustrar o impacto do programa, as pesquisadoras citam alguns casos, como o da pesquisadora Caroline Gil, que começou na Casa de Oswaldo Cruz, ainda no Ensino médio, seguiu para a pós-graduação e hoje é pesquisadora da COC. “Caroline fez todo o percurso: Ensino Médio, Pibic, pós-graduação e pós-doutorado. Hoje é nossa colega”, lembra Tamara. Outro exemplo é o de Júlia Gorges, que fez mestrado e doutorado e expandiu a agenda do grupo de pesquisa, trazendo a agroecologia para o debate histórico.
Pandemia: resistência e solidariedade
As três pesquisadoras concordam que o momento mais desafiador ocorreu durante a pandemia da Covid-19. Os encontros viraram telas pequenas, com imagens que congelavam e conexões instáveis. O isolamento e a insegurança econômica afetaram diretamente os alunos. “Havia bolsistas sem computador, sem internet. Em alguns casos, a bolsa sustentava a família. Foi muito doloroso”, conta Tamara Rangel. A pesquisadora revela que apesar de conseguir articular apoio institucional, empréstimo de computadores e acesso à internet, nem tudo foi resolvido: “A pandemia escancarou desigualdades”, lamentou. Ingrid Casazza acrescentou a dimensão emocional e política: “Muitos estavam sem horizonte. Universidades paradas, crise, desesperança. Se não existisse o acolhimento e escuta por parte do Pibic, muitos teriam desistido.”
Ainda assim, o programa resistiu, ajustou-se e prosseguiu. Juliana Manzoni acrescenta que também houve crescimento nesse processo, porque o grupo aprendeu a produzir remotamente, a organizar leitura coletiva, a apresentar resenhas e discutir problemas de pesquisa mesmo à distância.” O aprendizado foi tão intenso quanto o impacto emocional”, ressalta.
Um futuro pela frente
Ao se despedir da coordenação, Tamara acredita que sua principal contribuição é a consolidação do PIBIC como espaço reconhecido, estruturado e desejado dentro da Casa. “O programa conquistou um lugar institucional. Hoje ele reúne, integra, forma. Tornou-se um espaço reconhecido. Esse é o legado”, resume.
Juliana e Ingrid assumem com entusiasmo e responsabilidade o próximo capítulo dessa história. O plano não é apenas ampliar o que foi construído, mas ir além: “Queremos inovar com letramento digital, com formação em divulgação científica, com mais integração entre departamentos”, destaca Juliana.
Para as três pesquisadoras, o futuro do Pibic depende de manter o que foi conquistado, mas também de cuidar para que os estudantes continuem encontrando no programa não apenas formação acadêmica, mas horizonte, pertencimento e possibilidade de futuro.