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Civilização e sertão: polêmica entre conservadores e liberais marca debate político no século 19

11/10/2012

Compreender o debate em torno de centralizadores e federalistas no século 19, as diversas interpretações do Brasil defendidas por conservadores e liberais, bem como a dicotomia das ideias que marcaram esse período foram preocupações que nortearam o trabalho do historiador e pesquisador da UFRJ, Ivo Coser, na construção de sua premiada tese de doutorado pelo Iuperj, resultando ainda na publicação de um livro a partir de importante, mas não único personagem: Paulino José Soares de Sousa, o Visconde do Uruguai. Fruto dessa pesquisa, o livro “Visconde do Uruguai: centralização e federalismo no Brasil (1823-1866)”, da Editora UFMG, mergulha na polêmica que dominou aquele momento histórico. Coser discute ainda a imagem gerada pela existência de um país marcado pela existência de dois universos diferentes; de um lado, o da civilização, de outro, o sertão. Esse retrato de um país dividido era compartilhado por liberais e conservadores, argumentou o convidado do “Encontro às Quintas”, Ivo Coser, na palestra “Civilização e Sertão e as Interpretações do Brasil”, em que revelou como construiu e se desenrolou o processo de  sua investigação.

 

Formado em História pela UFF, mestre e doutor em Ciência Política pelo Iuperj, Ivo Coser é professor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ e do Departamento de Ciência Política da mesma universidade. Segundo o pesquisador, a “história dos conceitos” foi útil no processo de investigação. A partir dessa modalidade historiográfica, ao invés de procurar descobrir a intencionalidade de um determinado autor, Coser os analisou como “veículos onde perpassam diversos conceitos”. Desse modo, Ivo Coser mergulhou em fontes diversas para entender esse período histórico, usando jornais, panfletos, debates parlamentares, livros, “um material heterogêneo”, frisa. Por isso, ressalta o historiador, “Visconde do Uruguai é um dos atores analisados, entre outros”.

 

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O pesquisador da UFRJ Ivo Coser no Encontro às Quintas, debate
promovido pelo Programa de Pós-graduação da COC.
Foto de Roberto Jesus Oscar.


Visconde do Uruguai é considerado um dos principais políticos do Brasil Império apresentando aprofundado parecer sobre a navegação no Amazonas, bem como defendendo posições políticas e de Estado como as negociações com a Inglaterra para o fim do tráfico de escravos. Esta sua importância e seu pensamento podem ser melhor analisados levando em consideração o contexto de ideias da época e os conceitos que então circulavam, ao invés de considerá-lo como um autor e político acima do seu tempo.

 

Ao analisar os vários autores do período, Coser constatou que havia o que chamou de “pacto conceitual”, que marcou o pensamento do século 19. As discussões também eram influenciadas por duas correntes liberais: anglo-saxônica e a francesa. Esta última marcada por um liberalismo doutrinário, em que o Estado – significando harmonia – possui um papel fundamental; porém, com o indivíduo ainda movido pela competição. Por outro lado, “a reflexão anglo-saxônica volta-se aos valores do indivíduo, à busca em atender seus apetites e interesses”, destaca.

 

Em sua busca, constatou, em trabalhos de Alberto Guerreiro Ramos e Francisco José de Oliveira Vianna, que diversas famílias intelectuais foram desenvolvidas, como o de liberais moderados (ou liberais clássicos). Estes teriam transposto um modelo constitucional, que não encontrava respaldo na formação histórica ou no meio social brasileiro, por sua defesa dos valores anglo-saxões. Neste caso, a crença era de que as leis teriam a capacidade de alterar ou de mudar a realidade corrigindo o meio social marcado pela heterogeneidade brasileira. Outra família intelectual, segundo o pesquisador, era marcada pela defesa de uma adaptação das ideias vindas de fora.

 

Para frisar a reflexão em torno do tema, ele citou Oliveira Vianna, que formulou um diagnóstico destacando o formalismo – a transposição acrítica de experiências de outras realidades nacionais –, destacando dois autores importantes: Alberto Torres e Rui Barbosa. Enquanto o primeiro procurava compreender o Brasil por si só, sem buscar referência externa, o segundo era marcado pela posição inversa, fazendo a transposição de conceitos e ideais políticos sem uma recepção crítica.

 

Os autores que analisam o pensamento político do século 19 costumam filiar os autores a essas famílias estabelecidas por Oliveira Vianna, considerando os liberais como formalistas, enquanto os conservadores, ao procurar compreender a sociedade local, tenderiam para o realismo. Contudo, argumenta Coser, a percepção de um país dividido entre civilização e sertão era compartilhada pelas duas correntes, o que pode invalidar aquela filiação um tanto apressada. Liberais e conservadores compartilhavam, por exemplo, a ideia de que a existência dos grandes espaços no sertão brasileiro tinha o efeito de impedir que os indivíduos estabelecessem vínculos de interesse material, estimulando apenas a dispersão e o ócio.

 

Para os autores analisados, o interesse – esta “mola que move o coração humano”, no dizer da época – produz regularidade no comportamento, urbanidade, um comportamento urbano alcançado pela educação, tema marcadamente distante da realidade sertaneja. A civilização seria o contraponto.

 

“Há uma urbanidade, o hábito do trabalho, a presença do Estado e sua capacidade de agir, a ideia de opinião pública e o controle que gera. Isso não está presente no sertão”, explica Ivo Coser. “No sertão não há opinião pública”, acrescenta. Em sua avaliação, para os liberais, tanto quanto para os conservadores, as leis não poderiam ser pensadas sem se considerar a heterogeneidade do país, embora a medida não fosse dada pelo sertão, mas sim pela “compreensão do caminho da civilização”, destaca.

 

Concluindo seu estudo, o historiador ressalta a importância das diversas fontes para se identificar os conceitos presentes no debate social. “Quando eles [conceitos] começam a aparecer com muita freqüência em fontes muito diversas, é porque, de fato, estão orientando, em seu sentido mais amplo, o pensamento político daquela época. Não era uma divisão entre formalistas e realistas, entre aqueles que tinham uma percepção das diferenças e aqueles que tentavam importar ideias sem refletir criticamente”, finaliza Ivo Coser.


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