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Mulheres negras romperam o paradigma da enfermeira padrão no início do século 20, revela pesquisa

13/05/2020

Por Jacqueline Boechat

Embalado pelas invenções e novidades do final do século anterior, o século 20 trouxe ares de modernidade. Logo em suas primeiras décadas, transformações no cenário político, artístico, econômico e cultural, ampliadas pelo surgimento da comunicação de massa, alteraram o cenário mundial. Nesse período, o Brasil também passava por transformações, tanto na política e economia, como também no campo social, como a aceleração do processo de urbanização, alterações de hábitos e costumes e o término oficial da escravidão.

De um lado, a enfermagem buscava ser vista como profissão de elite; de outro, se configurava como oportunidade de mobilidade social para mulheres negras e mestiças

Na primeira metade do século 20 também ocorreu o processo de institucionalização da enfermagem profissional, que de um lado, procurava se afirmar como profissão de elite, e de outro, se configurava em uma oportunidade de mobilidade social para mulheres negras e mestiças. Essa aparente contradição é uma das primeiras conclusões do pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz (Fiocruz), Luiz Otávio Ferreira, em seu projeto Enfermagem e raça: biografia coletiva de mulheres negras e suas trajetórias em escolas de enfermagem no Brasil (1920-1960), contemplado em 2016 pelo Concurso de Pesquisa Negras e Negros nas Ciências, promovido pela Fundação Carlos Chagas com o apoio da Fundação Ford.

O projeto tem o objetivo de estudar como a questão de raça influenciou a formulação e implantação de políticas públicas de saúde e educação. Para isso, se propõe a analisar os mecanismos de inclusão e exclusão de mulheres negras e pardas no corpo de estudantes de três escolas de enfermagem: Anna Nery, Carlos Chagas e Rachel Haddock Lobo, utilizando a prosoprografia, uma biogragia coletiva das mulheres que tentaram ou se profissionalizaram como enfermeiras. O estudo tem como base informações extraídas de acervos dos centros de documentação e memória mantidos por estas escolas: “São dossiês formados pelos registros escolares que acompanham a percurso das estudantes desde o ingresso até a conclusão ou exclusão do curso de enfermagem”, explica Ferreira.

Após analisar os 934 prontuários das três escolas, a pesquisa chegou a seguinte distribuição racial exclusivamente feminina: alunas brancas (76%) e alunas não-brancas ( 23%), considerando não brancas ou negras as alunas que se autodeclaravam pretas (3%), pardas (10,5%) e morenas (9,5%). “Os documentos mostraram que a adesão de mulheres de classe média, brancas e com escolaridade secundária à profissão de enfermeira ficou abaixo das expectativas”, ressalta Ferreira. Para o historiador, esse fator contribuiu para a entrada de alunas negras e pardas: “A necessidade de aumentar substancialmente o contingente de profissionais de enfermagem nos serviços públicos de saúde favoreceu a composição social e racial mais heterogênea das escolas de enfermagem”, afirma.

A enfermeira padrão

Fichas de três alunas. Fonte: Arquivo da Escola
de Enfermagem Anna Nery.

A formação de enfermeiras profissionais foi um dos principais objetivos da política de saúde pública implantada no Brasil a partir da década de 1920. A transformação da situação sanitária do país e melhoria das condições de saúde da população dependeriam da criação de um contingente de enfermeiras profissionais para serem implementadas. Uma das medidas para atender essa necessidade foi o acordo de cooperação firmado entre o Departamento Nacional de Saúde, então dirigido pelo cientista Carlos Chagas, e a Fundação Rockefeller, que trouxe ao Brasil a missão comandada pela enfermeira norte-americana Ethel Parsons, responsável pela criação da escola de enfermagem Anna Nery.

Até a década de 1920, a enfermagem não era uma profissão, mas um ofício principalmente doméstico, prestado por homens e mulheres de classe mais baixas e escravos. A primeira iniciativa a oferecer formação técnico-científica para a profissão foi a escola Anna Nery, que se tornou padrão para as demais escolas de enfermagem a partir de 1930. A escola estabelecia critérios rígidos que acabavam por dar viés à seleção: “Essas exigências privilegiavam um determinado grupo de moças da classe média, urbana, branca e com educação secundária”, pontua o pesquisador. Ao lado do estigma social e cultural do próprio serviço, esses critérios acabaram por se tornar entraves à expansão da profissão, levando a um déficit de profissionais e abrindo uma janela para a entrada de mulheres de outras raças e características socioculturais.

Branca, classe média urbana e de boa família: esse era o estereótipo da enfermeira padrão do início do século 20

A pesquisa mostrou também que a discriminação racial foi uma prática institucional informal: era aceitável que a enfermeira padrão fosse pobre, mas não que fosse negra. Para chegar a essa conclusão, o estudo lançou mão de outras variáveis além da raça autodeclarada, como posição de classe por meio da ocupação do pai, matérias jornalísticas da época e correspondências pessoais. As seleções levavam em conta o conhecimento teórico, a prática, e até mesmo o comportamento das alunas: “Havia rumores de que as candidatas não brancas eram preteridas, mas só conseguimos ver isso explicitamente na correspondência trocada entre uma recrutadora e a direção de uma das escolas de enfermagem”, contou o pesquisador.

A diversidade racial só começou a se fazer sentir de forma intensiva a partir das décadas de 1940 e 1950, o que coincidiu com o momento de crise, quando o governo percebeu que existia um déficit de enfermeiros formados. Apesar disso, Ferreira argumenta que a profissão era uma possibilidade de mobilidade social, considerando que o acesso ao ensino de nível superior era extremamente elitizado nesta época e que a presença de estudantes pobres e não-brancos e sobretudo de mulheres em faculdades constituía uma rara exceção: “O fato de 30% de enfermeiras não-brancas terem conseguido se diplomar nas escolas estudadas é um sinal de mobilidade social para grupos raciais discriminados e também prova do protagonismo dessas mulheres que conseguiram furar o sistema”, conclui.

Veja os artigos que foram desenvolvidos a partir da pesquisa:

FERREIRA, Luiz Otávio; AZEVEDO, Nara. Origem social e racial e a formação de enfermeiras profissionais no Brasil (1930-1960). Revista ABPN, v. 11, p. 231-251, 2019.

FERREIRA, LUIZ OTÁVIO; SALLES, RENATA BROTTO. A origem social da enfermeira padrão: o recrutamento e a imagem pública da enfermeira no Brasil, 1920-1960. NUEVO MUNDO-MUNDOS NUEVOS, 2019. https://journals.openedition.org/nuevomundo/77966

 


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