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‘Aluga-se uma ama de leite’

16/01/2019

Contratação de amas de leite popularizaou-se no Rio durante a Primeira República, aponta estudo de aluna da COC

Quem andasse por localidades do subúrbio do Rio de Janeiro como Madureira ou a Estação da Mangueira ao longo da Primeira República (1889-1930) não se surpreenderia ao observar uma prática antes comum apenas entre as classes mais abastadas da então capital federal: a contratação de amas de leite por mães mais pobres. Com a expansão dos serviços de trens, mulheres brancas, pardas e negras, brasileiras ou estrangeiras, puderam circular mais pela cidade para oferecer esses serviços a terceiros após darem a luz.

Essas transformações estão retratadas na dissertação de mestrado defendida por Caroline Gil no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde, da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz). O trabalho intitulado Precisa-se ou Aluga-se: o mapeamento de amas de leite na cidade do Rio de Janeiro na Primeira República recebeu menção honrosa do Prêmio Professor Afonso Carlos Marques de Souza, oferecido pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Apesar de todos os esforços para a fiscalização, a popularização das amas de leite indica que as práticas culturais são tão influentes, ou mais, do que o discurso médico

“A saída de muitas famílias da região central do Rio de Janeiro, além [de sintoma] da especulação imobiliária, indicava a ida para o subúrbio de pessoas que tinham condições de voltar e participar da vida na cidade”, afirma Caroline sobre o poder aquisitivo de algumas famílias residentes do subúrbio e as diferenças presentes no interior das classes populares. Um mapeamento produzido por ela a partir de 1.600 anúncios publicados na primeira década do século 20 no Jornal do Brasil mostrou que localidades que se consolidavam como bairros tradicionais, como as arborizadas Tijuca e Méier, registraram a contratação de nutrizes nesse período. Entretanto, famílias com menos recursos, que residiam em localidades mais distantes como Engenho Novo, Engenho de Dentro e Estação da Mangueira também tinham interesse em contratá-las.

Os anúncios mostram que as operárias das fábricas também buscavam amas de leite, pois precisavam trabalhar. “O anúncio partindo da fábrica indica que isso era uma forma de não deixarem de trabalhar e gerava emprego para mulheres que ganhavam menos que elas. Só não é possível dizer se os anúncios eram pagos pelos industriais ou pelas próprias operárias”, ressalta Caroline.


Historiadora pesquisou anúncios do início do século 20. Foto: Haendel Gomes

Prática das amas de leite chega ao Brasil no período colonial

De acordo com a historiadora, a atuação de amas de leite é antiga. Presente na metrópole portuguesa, a prática foi trazida para o Brasil no período colonial. Nessa época, mulheres escravizadas grávidas e paridas eram alugadas gerando renda aos senhores. Mulheres livres e imigrantes recém-chegadas, por sua vez, também conseguiam o sustento como nutrizes.

“A princípio, a ama foi identificada como uma forma de suprir os desejos ou necessidades de mães que se opunham ao aleitamento ou estavam impedidas de realizá-lo. [A] atividade [era] exercida pela mulher escravizada que, por vezes, permanecia no seio familiar como ama seca, obtendo o lugar de ‘mãe preta’”, explica Caroline em sua dissertação.

A princípio, a ama foi identificada como uma forma de suprir os desejos ou necessidades de mães que se opunham ao aleitamento ou estavam impedidas de realizá-lo. A atividade era exercida pela mulher escravizada que obtia o lugar de ‘mãe preta'

Além de mostrar uma brusca alteração no quadro das amas de leite na passagem do século 19 para o 20 na esteira do fim da escravidão no país, a pesquisa apontou que a substituição do leite materno pelo leite de vaca ou farinhas lácteas não foi um processo rápido.  Acredita-se que a continuidade do estudo permitirá identificar se os custos de produção e comercialização foram uma barreira à disseminação do uso desses produtos pelo menos até os anos 1920, quando a indústria de leite artificial passou por um processo de afirmação no Rio de Janeiro e houve queda na aparição de amas de leite na imprensa. Nessa mesma época, a Nestlé, multinacional do leite, estabelecia sua sede em Araras, no Estado de São Paulo.

Fiscalização do leite no Rio de Janeiro

Com a disseminação da contratação de amas de leite, vários problemas aparecem. Para tentar fiscalizar as nutrizes, o médico Moncorvo Filho criou uma caderneta em 1903 exigindo regras de conduta da mulher, que não poderia exercer outra função sem aprovação do Instituto de Proteção e Assistência à Infância (IPAI), criado por ele.

Segundo Caroline, desde a segunda metade do século 19, registraram-se diferentes tentativas de fiscalizar a atuação das nutrizes mercenárias. Entre as iniciativas, estavam o projeto de fiscalização para amas de leite, proposto por Arthur Moncorvo de Figueiredo, em 1876, o regulamento para amas de leite, de 1884, e o serviço de exame de nutrizes feito pelo Instituto de Proteção e Assistência à Infância (IPAI), em 1903.

Chefe da Inspetoria de Higiene e contrário às amas de leite, Fernandes Figueira considerava toda mãe apta à amamentação. Para ele, a ama de leite era um recurso indesejável, do qual se deveria lançar mão apenas em casos extremos, porém melhor do que o emprego do leite artificial (leite de vaca e farinhas lácteas). Apesar de não reconhecer o serviço de amas, a inspetoria estabeleceu critérios para o seu exercício.

“Apesar de todos os esforços para a fiscalização, a popularização das amas de leite indica que as práticas culturais são tão influentes, ou mais, do que o discurso médico”, constata Caroline Gil.

Caroline Gil
Página do Jornal do Brasil no início do século passado. Fonte: CPDOC JB

Amamentação cruzada

Contraindicada formalmente pelo Ministério da Saúde há mais de 20 anos, esta prática ainda acontece entre algumas mulheres/mães que amamentam filhos de outras por diversos motivos. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), muitas doenças são transmitidas pelo leite materno, em especial Aids, e, por este motivo, os riscos da amamentação cruzada são enormes.

Apesar de parecer um gesto de amor e solidariedade, esta prática é perigosa e pode trazer consequências para toda a vida ao adquirir uma nova infecção. Por este motivo, toda mulher que deseja doar seu leite, deve entrar em contato com um Banco de Leite Humano para fazer seu cadastro como doadora e ajudar a salvar a vida de muitos recém nascidos prematuros ou que estão internados em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal.

Mais informações sobre amamentação podem ser obtidas na Rede Brasileira de Bancos de Leite Humano (rBLH-BR), estabelecida em 1998, por iniciativa do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz, com a missão de promover, proteger e apoiar o aleitamento materno, coletar e distribuir leite humano com qualidade certificada e contribuir para a diminuição da mortalidade infantil.


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