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Dia de luta contra malária serve para lembrar combate à pobreza, diz pesquisador

O Brasil enfrenta os problemas decorrentes da malária desde meados do século 19. Com o advento da República e a nova diretriz para o desenvolvimento da Amazônia e áreas rurais do País, tornou-se urgente o enfrentamento da doença. No entanto, a falta de continuidade das ações e de uma política de saúde pública dificultam até hoje o combate à enfermidade, avalia o historiador Rômulo de Paula Andrade, da Casa de Oswaldo Cruz (COC)/Fiocruz. Segundo o pesquisador, fatores econômicos pautaram as medidas governamentais ante o agravo. “Os planos contra a malária nunca vingaram. Os diagnósticos feitos na época já chamavam atenção para os aspectos da precária estrutura social da região amazônica”, disse. A malária pode até matar, de acordo com a ação do plasmódio. “Em geral, a doença deixa o paciente prostrado, impedindo que possa trabalhar”, frisou.

“É muito triste ver casos de malária voltando em regiões onde era controlada, devido à falta de continuidade e estruturação de saúde pública. No momento em você tem fragilidade institucional, começa a retornar algumas doenças”, lamenta o professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz (PPGHCS). Usando como exemplo a dengue, doença transmitida pelo Aedes aegypti e endêmica em grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo, Rômulo frisa que a malária faz parte da paisagem da região amazônica.

O especialista da COC faz um relato do esforço nacional para erradicar a enfermidade, principalmente no Norte e Nordeste, e ressalta tratar-se de uma doença negligenciada, que sofre com a falta de investimentos e volta a preocupar as autoridades sanitárias mundiais. De acordo com o relatório do World malaria report 2017 (relatório mundial sobre a doença), em 2016, houve cinco milhões de casos a mais de malária do que no ano anterior. No período, foram registrados 445 mil óbitos pela doença, número equivalente ao de 2015.  

Para conhecer sobre o agravo e despertar a atenção das pessoas, governantes e profissionais da área da saúde, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu 25 de abril como Dia Mundial de luta contra a Malária. A instituição pretende, com isso, divulgar informações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento com toda a população e não apenas com os envolvidos no setor saúde. No Brasil, 99 por cento dos casos da enfermidade são registrados no Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.  “O dia de combate à malária serve para lembrar o combate à pobreza, desigualdade social e de acesso a serviços de saúde e saneamento, e para que a doença não seja mais negligenciada; que seja prioritária nos programas internacionais de combate à doença”, disse.

O historiador lembra que os fluxos migratórios, as grandes construções como a da estrada de ferro Madeira-Mamoré, no início do século 20, e intervenções estatais, como a Rodovia Belém-Brasília, feita na década de 1960 com 2.200 km de extensão, contribuem para o aumento de doenças. 

“O Brasil tem uma trajetória muito bonita de médicos, profissionais anônimos e famosos que dedicaram seus esforços e suas vidas ao longo do século 20 ao combate à doença, que, acabou de certa forma – infelizmente – dando identidade à uma região. Com esse trabalho, ajudaram a criar uma estrutura contra a enfermidade”, destacou Rômulo de Paula Andrade. Como exemplo, lembrou o trabalho do médico Mário Pinotti, cujo método de tratamento usando o sal cloroquinado foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Sobre a malária

A malária é uma doença infecciosa febril aguda, causada por protozoários transmitidos pela fêmea infectada do mosquito Anopheles. De acordo com o Ministério da Saúde, quando realizado de maneira correta, o tratamento – oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – garante a cura da doença.

No Brasil, as estruturas de luta contra a malária foram divididas da seguinte forma, no século 20: Serviço de Profilaxia Rural (1918-1922), dirigida por Belisario Penna; o Serviço Nacional de Malária (1941-1956); o Serviço de Malária do Nordeste (1939-1941) e a Cooperação com a Fundação Rockefeller.

Sobre o tema, a revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, editada pela Casa de Oswaldo Cruz, reúne artigos e estudos, disponibilizando-os, também, na plataforma SciELO.

Madeira-Mamoré – a ferrovia do diabo

Com a modernização republicana, que teve na construção de ferrovias um grande símbolo para integrar o território nacional, os cientistas foram chamados para eliminar os surtos epidêmicos na Amazônia e em outras regiões. O êxito das campanhas contra a febre amarela, peste bubônica e varíola, no Rio de Janeiro, credenciaram Oswaldo Cruz a ser contratado pela Madeira–Mamoré Railway Company. A empresa pretendia construir a estrada de ferro que ligaria Porto Velho a Guarajá-Mirim, no atual estado de Rondônia. O cientista, então titular da Diretoria-Geral de Saúde Pública, produziu um minucioso diagnóstico da situação e viabilizou a conclusão do empreendimento.

O relatório “Considerações Gerais sobre as Condições Sanitárias do rio Madeira” apresentou descrições sobre o quadro de doenças e o abandono das localidades. Antes da contratação de Cruz, que viajou à região com o médico e pesquisador Belisário Penna, a Madeira-Mamoré era conhecida como a “ferrovia do diabo” ou “ferrovia da morte”. O projeto existia desde meados do século 19, como saída para o Atlântico pelos rios Madeira, Mamoré até o Amazonas. Os quase 370 quilômetros da estrada, finalmente, puderam ser construídos entre 1907 e 1912.

Combate à malária na Baixada Fluminense

Antes de atuar na região amazônica, Oswaldo Cruz enviou à Baixada Fluminense dois cientistas de Manguinhos: Arthur Neiva e Carlos Chagas. A dupla chegou a Xerém em fevereiro de 1907 para enfrentar a malária, que havia infectado grande parte da população e impedia a contratação de trabalhadores saudáveis. Lá, eram realizadas obras para levar água até a capital, distante 60 quilômetros da localidade. Além de um hospital de campo, foram adotadas medidas para deter o avanço da doença: a eliminação de focos do vetor, de pântanos e canalização de rios. As autoridades sanitárias promoveram ainda a ingestão obrigatória de quinina, fazendo o tratamento contínuo dos doentes e a proteção dos depósitos de água.

A interrupção das obras de desenvolvimento por causa da doença tirou Chagas da Baixada e o levou a Minas Gerais, onde era realizado o prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil. A ordem para combater a malária em Minas havia partido do ministro da Viação e Obras Públicas, Miguel Calmon du Pin e Almeida.

Os anos 1930 e 1940 – a participação da Fundação Rockefeller

A International Health Division, da Fundação Rockefeller, atuou, principalmente, no nordeste e na criação do Serviço de Malária do Nordeste (SMNE), que visava a erradicação da doença. No final da década de 1930, foi implementada a campanha contra o Anopheles gambiae na região, institucionalizando a luta contra a enfermidade no país. A iniciativa marca também a intensa relação do Brasil com a Fundação norte-americana, que já havia colaborado com o governo na década de 1910, e nos anos de 1930 no Serviço de Febre Amarela. O esforço para eliminar a malária na região trouxe a questão ao debate internacional sob uma perspectiva global.

O Serviço Nacional de Malária - SNM

Instituído 1941 no âmbito da reforma do Departamento Nacional de Saúde, o Serviço Nacional de Malária (SNM) tenha por objetivo organizar e executar o enfrentamento ao agravo, produzir estudos e pesquisas sobre a doença. Obras de drenagem, aterros e aplicações de larvicidas, além de inquéritos e investigações epidemiológicas e entomológicas foram adotados para eliminar os transmissores da malária, ainda em sua fase aquática. Um batalhão formado por médicos que coordenavam e supervisionavam os trabalhos de técnicos de laboratório, engenheiros, topógrafos e trabalhadores atuava nas regiões mais remotas do país. O processo já era conhecido desde as ações dos serviços sanitários, em 1910.

Com as experiências do SNM, foram adotadas novas estratégias para o combate às endemias rurais no período e em medidas de erradicação, na década de 1950. A redemocratização do País depois da Segunda Guerra Mundial manteve sua estrutura, e originaria o Departamento de Endemias Rurais (DNERu), em 1956, com a direção do médico Mário Pinotti.

Método Pinotti – década de 1950

O sal medicamentoso de Mario Pinotti foi adotado como um novo método de combater a malária, na década de 1950. Consistia no uso do sal cloroquinado, utilizado na região amazônica desde 1952. O medicamento fazia parte das ações da Superintendência de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), tendo sido utilizado também pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na Campanha de Erradicação da Malária.

O coordenador da Campanha de Erradicação da Malária (CEM), o malariologista Fernando Bustamante, encarava com otimismo a adoção do método Pinotti. Porém, em artigo de 1959, indicava possíveis problemas na aplicação do medicamento. Entre as dificuldades, estariam o alto custo do produto; a necessidade de marcos legais proibindo a venda e o consumo de sal grosso, o aparecimento de cepas resistentes ao cloroquino e a desconsideração das tradições culturais locais. As pessoas não consumiam o sal cloroquinado, devido ao gosto amargo, fato que ocasionava até o tráfico do produto tradicional. Diante das adversidades, que incluíam a inadequação das estratégias do programa na Tailândia e Colômbia, e na própria bacia amazônica, a substância deixou de ser utilizada, em 1961.

Outro produto muito usado para conter o avanço do vetor da malária foi o DDT, que já sofria a resistência do Anopheles; não alcançava o interior da Amazônia e representava gasto excessivo de dinheiro.