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Justiça na cooperação em saúde depende da integração entre biotética, saúde pública e relações internacionais

2012-09-19

Um dos fundadores do Núcleo de Estudos sobre Bioética e Diplomacia em Saúde (Nethis), que reúne o Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fiocruz, a Universidade de Brasília e a Organização Panamericana de Saúde, José Paranaguá Santana lançou mão de metáforas poéticas e literárias, em sua apresentação no Encontro às Quintas de 13 de setembro, quando falou da cooperação e de relações diplomáticas no campo da saúde entre países do Cone Sul.

 

Durante suas atividades que envolvem a pesquisa e a reflexão no campo da saúde, José Paranaguá recorre a uma reflexão de Riobaldo, o protagonista de Grande Sertão: Veredas. Em uma passagem do romance de Guimarães Rosa, o personagem conclui que “... o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Segundo o coordenador do Nethis, “a perspectiva bioética também deve ser considerada ao longo de toda a travessia”.

 

Paranaguá falou de sua trajetória profissional e da pesquisa que resultou na tese de doutoramento, Cooperação Sul — Sul na área da saúde: dimensões bioéticas, que envolve discussões conceituais e a perspectiva da importância da ética solidária nas práticas da saúde pública. “Eu fiz medicina, mas tenho a sensação agradável de seguir a trajetória de pensar a formação médica com uma nova perspectiva”, explicou, contando que aquela foi a primeira vez em que discutiu, com colegas, professores e alunos de pós-graduação, os resultados de sua pesquisa depois da defesa da tese de doutoramento na UNB em julho deste ano.

 

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José Paranaguá defende o enfoque interdisciplinar entre saúde,
diplomacia e bioética. Foto: Roberto Jesus Oscar.

Paranaguá diz ser “um otimista” e prefere seguir acreditando na solidariedade de profissionais brasileiros, que trabalham em parceria com colegas de países africanos, por exemplo, na implantação de políticas e serviços visando a saúde de populações.

 

Durante o seu doutoramento, José Paranaguá verificou que temas de bioética, saúde e diplomacia são tratados de maneira isolada, tanto em documentos oficiais de cooperação entre países, como no campo acadêmico, em investigações e na formação de recursos humanos, o que é apontado como um problema a ser superado. Ele também falou da “escassez de trabalhos existentes na literatura científica que discutam essas disciplinas e suas confluências”. Segundo José Paranaguá, para garantir a igualdade e a justiça na cooperação em saúde entre países, não se pode pensar separadamente a bioética, a saúde pública e as relações internacionais.

 

Após a apresentação, com sua longa trajetória na militância e reflexão em cooperação internacional em saúde, o médico Henri Jouval comentou o trabalho de seu antigo aluno, bem como teceu comentários sobre as tendências contemporâneas das organizações internacionais. Ao mesmo tempo em que salientou a importância histórica da Organização Mundial da Saúde, mostrou-se preocupado com a perda de sua centralidade.

 

A palestra de Paranaguá e os comentários de Jouval motivaram o debate sobre a necessidade e as dificuldades para a efetivação de uma perspectiva bioética na cooperação em saúde entre os países e também sobre os desafios para o fortalecimento da saúde no eixo sul-sul. E o evento efetivou, também, o reencontro de dois velhos companheiros de travessia.


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