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Raça e identidade na diplomacia brasileira na África, 1960-1975

2011-09-06

No dia 18/8, o Encontro às Quintas recebeu o historiador Jerry Dávila para tratar do tema Raça e Identidade na diplomacia brasileira na África de 1960 a 1975. A palestra baseou-se em seu livro Hotel Trópico: Brasil e o desafio da descolonização africana, que acaba de ser lançado no Brasil pela Editora Paz e Terra. As questões recorrentes no livro são o ideário da "democracia racial" e seus desdobramentos na diplomacia, a dimensão comercial entre o Brasil e os países africanos e o impacto das relações com Portugal no conturbado contexto de descolonização do Continente africano.

 

 

 

Conforme defende Dávila, a ideia de igualdade racial teve um papel central na forma como o Brasil relacionou-se com a África a partir da década de 1960. O universo de Gilberto Freyre está presente nesse momento da África de colonização portuguesa, explicou Dávila, porque ele apresenta a miscigenação não como um fenômeno patológico, mas sim como uma forma de adaptação positiva aos trópicos, uma sociedade única no mundo.

 

 

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Da esq. para dir., Robert Wegner, coordenador do Encontro às Quintas, e o historiador Jerry Dávila.


Desse modo, a política diplomática brasileira na África, procurava propagar o argumento de que o Brasil era o maior exemplo no mundo de coexistência e harmonia das raças, era o discurso da "democracia racial". No seu livro, Dávila demonstra como esta ideia era arraigada nos brasileiros que se dirigiam ao continente africano.

 

Inspirados na visão de Gilberto Freyre, segundo a qual o Brasil teria sido o resultado da miscigenação entre portugueses e africanos, os brasileiros procuravam se apresentar na África como africanos, independentemente de sua cor. Neste sentido, a diplomacia brasileira pensava no futuro do Continente a partir da marca africana no seu próprio passado. Portanto, de acordo com esse ideário, os brasileiros, pela história do seu país, eram os que poderiam compreender melhor as oportunidades da Nova África.

 

Os diplomatas e políticos consideravam que suas ações concernentes a África tinham reflexos sobre o desenvolvimento econômico do Brasil e seu sistema de relações raciais. Mas eles também insistiam em se voltar para Portugal. Durante a maior parte do tempo, a política brasileira referente aos países africanos estava subordinada à política que o Brasil adotava ante Portugal.

 

No contexto da descolonização do continente, esta equação ganha dramaticidade e dilemas difíceis de resolver. Em síntese, que parte de suas raízes os brasileiros deveriam apoiar: a portuguesa ou a africana? E, complexificou Dávila, “E o que era mais importante: a conexão sentimental com Portugal ou a aspiração desenvolvimentista de fazer do Brasil um líder industrializado do Terceiro Mundo?”

 

Foi no governo de Jânio Quadros, em 1961, que se estabeleceram os primeiros embaixadores brasileiros na Nigéria e em Guiné-Bissau. Para Jerry Dávila, no período do governo do presidente Jânio Quadros formou-se uma concepção de que o Brasil estava em ascensão e que a África seria o espaço natural de expansão do país em termos econômicos e políticos, e a "democracia racial" foi o veículo principal pelo qual a diplomacia brasileira conseguiria legitimidade para argumentar a existência de um relacionamento diferenciado entre as nações.

 

Dávila destacou a forma como a diplomacia apropriou-se das teses freyrianas. "O Brasil era uma ex colônia portuguesa que defendia a democracia racial, o que era a melhor propaganda". Poucos eram os diplomatas brasileiros que questionavam essas teses. Um deles foi Rubens Ricupero, chefe da Divisão Cultural do Itamaraty na época da viagem a África de Mário Gibson Barboza, ministro das Relações Exteriores no governo de Emílio Garrastazu Médici.

 

Por sua vez, Gibson Barboza, figura em que Jerry centrou sua exposição, considerava o Brasil como o “país de africanos de todas as cores”. Nesse sentido, segundo a visão do chanceler brasileiro, o Brasil era o país mais adequado para operar como um mediador entre os países africanos e Portugal em um período tão conturbado como o início da década de 1970.

 

A independência das colônias portuguesas na África iniciou-se em 1973 com a declaração unilateral da República da Guiné Bissau, que foi reconhecida pela comunidade internacional, mas não pela potência colonizadora. As restantes colônias portuguesas ascenderam à independência em 1975, na sequência da Revolução dos Cravos.

 

No âmbito econômico, Dávila relatou os esforços brasileiros na construção de laços comerciais com a Nigéria, por exemplo o ativismo da Petrobrás, Braspetro e Interbrás, que levou o mercado nigeriano a ser o segundo maior para produtos manufaturados brasileiros, atrás apenas do mercado americano. Depois, com o colapso dos preços do petróleo e a redução dos subsídios, terminaram os investimentos.

 

Dávila informou que se utilizou de personagens variadas para analisar as relações internacionais entre o Brasil e a África Atlântica, levando em conta aspectos culturais, artísticos, políticos e econômicos. Além de diplomatas e governantes, investigou as posturas de guerrilheiros, acadêmicos, líderes sociais, empresários e intelectuais. Também usou múltiplas fontes de jornais da Costa do Marfim a Nigéria, bem como registros da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) existente em Portugal entre 1945 e 1969, o que lhe permitiu focar não só no olhar brasileiro sobre o mundo, mas também examinar como o mundo africano observava o Brasil e reagia às iniciativas do país.

 

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Público no Encontro às Quintas, excepcionalmente realizado na Casa de Rui Barbosa.


Jerry Dávila possui doutorado em História pela Brown University (1998). Atualmente é professor associado da University of North Carolina at Charlotte e Secretário Executivo da Conference on Latin American History (CLAH). Dávila possui diversos artigos publicados em revistas especializadas e seu livro anterior, Diploma of Whiteness: Race and Social Policy in Brazil (1917-1945), publicado nos Estados Unidos em 2003, ganhou versão em português em 2006.

 

 


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